Proclo e a Origem do Mal

Proclo
por Breno Lucano

Sobre a questão do mal, Proclo escreve três trabalhos: "Dez aporias relativas à prónoia" (De decem), "Sobre prónoia, destino e liberdade" e "Sobre a existência do mal" (De malorum subsistentia), chegando a uma solução perfeitamente autônoma e interessante. 

Ocorre que Proclo não se mostra convencido com a posição estóica sobre o mal, que buscam negá-lo e alocá-lo entre os indiferentes. Tampouco aceita a tese segundo a qual a providência não deve ser estendida ao âmnito das coisas terrenas. A suposição de Plutarco, de que haveria uma alma que efetua o mal, não o deixa satisfeito, o que ocorre também com a tese de Plotino, que associa a matéria com o mal. Como matéria é a última emanação da causa suprema e boa, ela não pode ser má, e sim, no máximo, neutra, nem boa nem má. Proclo busca outras saídas. 

O autor tenta, então, manter as duas posições - a tese do bom Deus e a existência do mal - sem que decorra delas uma contradição. Ele quer ver providência como uma causa que a tudo governa, e que, não obstante, não é responsável pelo mal nem direta nem indiretamente. Com essa finalidade, ele oferece uma análise expressiva da noção de causa. Proclo contesta que haja uma única causa para o mal, como supõem, por exemplo, os maniqueus. Ele fundamenta esta tese com a observação de que não haveria uma existência (hipóstase) própria para o mal, mas uma existência apenas colateral. Vejamos de que modo.

Ética e Hedonismo

por Breno Lucano

Muito se fala do dever enquanto modalidade ética e, assim, contra as proposições hedonistas., e disso já discorri no texto sobre Hedonismo, entre outros. Assim, o prazer se torna o oposto do dever, dois blocos diametralmente opostos na ética. Muito disso se deve à nossa herança iluminista, especialmente Kant; e, num modelo mais popular, ao cristianismo.

Ao contrário do que se diz, o hedonismo abrange os prazeres esperados da mesma forma que os desprazeres dispensáveis. Se põe como cálculo do regozijante ou aborrecido, do agradável e do desagradável, para somente depois julgarmos antes de agir. Epicuro explica tal matemática ao ensinar que um prazer não merece ser desfrutado se for seguido de um desprazer. O mero júbilo instantâneo se torna relativo e apenas procurado se considerarmos o momento após o instantâneo.

Gladiador e Filosofia

por Breno Lucano

Gladiador foi, seguramente, um dos filmes que mais marcou minhas reflexões filosóficas e que me influenciou desde o início, impelindo-me para a investigação dos meandros estóicos e, de modo muito particular, ao universo de Marco Aurélio. Isso fez com que, em 2005, criasse o Portal Veritas como forma de publicar textos à respeito do Imperador e de seu pensamento, algo que preservo ainda hoje à partir da coluna com seu nome.

Escrevi já bastante coisa sobre Marco Aurélio, onde destaco os textos Marcus Aurelius, Homem, Filósofo e Guerreiro e As Meditações de Marcus Aurelius. Mas o filme nos confere já algumas reflexões, apesar de suas limitações. A grandiosidade da produção é um show à parte, que garante um bom entretenimento.

Diógenes e o Ofício Cínico

Diógenes na pintura "Escola de Atenas", de Rafael
por Breno Lucano



O cinismo era primordialmente definido como "um atalho para a virtude", em oposição ao estudo elaborado e teórico típico da filosofia. Contudo, esse atalho não significava algum tipo de facilidade quanto à aquisição de uma vida filosófica, porquanto requeria a aplicação de um método rigoroso: a askésis ("exercício", "prática", "treino", "disciplina").

Entendida no sentido cínico do termo, a askesis tinha o intuito de ser um método preventivo. A cada dia, o cínico treina a si mesmo fisicamente nas artes da perseverança e da resistência; o exercício diário da vontade faz com que o medo se dissipe, já que o cínico praticante está constantemente se fortificando contra infortúnios imprevistos. A compreensão da askesis deve ser entendida sob o contexto do cínico como um filósofo da contingência.

O conceito de "disciplina" (askesis), emprestado do vocabulário do atletismo, não era usado pelos cínicos apenas no sentido metafórico. Como a do atleta, a disciplina (askesis) do filósofo era totalmente concreta. A única diferença estava no telos de seu treinamento, a finalidade de seu ofício: enquanto o atleta treinava o seu corpo com vista à vitória no estádio, o cínico o treinava para fortalecer a sua vontade e assegurar a sua capacidade de resistência.

Poliamor e Poder

por Breno Lucano

Em tempos de elevada onda ultra-conservadora que varre a sociedade brasileira, variados temas entram em choque com os costumes, como o uso da maconha para fins medicinais e a marcha das vadias. Outros temas, contudo, já foram e continuam sendo de algum modo discutidos, como a reprodução in vitro, a instituição do divórcio, a entrada da mulher no mercado do trabalho, a cultura gay, a legalização do trabalho das profissionais do sexo, entre outros. Um me chamou a atenção: o poliamor.

Conceituamente o poliamor viabiliza a desconstrução da monogamia enquanto imperativo normativo, viabilizando a vivência de variados amores simultâneos e de profundidade e durabilidade. Ele, contudo, não se confunde com poligamia na medida em que a poligamia sugere assimetria de gêneros. Se pensarmos, a título de exemplo, os muçulmanos, apenas o homem pode ser polígamo, constituindo um núcleo familiar formado por um homem com várias mulheres. O poliamor admite, opostamente, a vivência de mais de uma relação amorosa simultânea, tanto de homens quanto de mulheres.

Moral Atéia?

por Breno Lucano

Frequentemente somos questionados quanto às articulações existentes entre a fé e a moral. Em termos mais simples, qual o real impacto da fé - ou sua ausência - na moralidade? Minhas experiências no convento franciscano parecem fazer algum sentido para uma pergunta que parece tão óbvia: a fé possui importante papel na motivação, além de conferir sentido ao mundo. Posteriormente, pude verificar a diferença sob o enfoque ateu, algo que me fez lembrar de Kant em seu célebre Crítica da Razão Pura, onde ele resume o domínio da filosofia em três questões: "que posso conhecer? Que devo fazer? Que posso esperar?" Confrontemos rapidamente cada uma das três com a perda eventual da fé.


Em termos de conhecer, a perda da fé em nada produz alteração. O conhecimento científico continua sendo o mesmo, com todos os seus limites. Talvez a crença em Deus produza algum estado de espírito, o motive, propicie um sentido último às suas pesquisas, sem, contudo, modificá-las, sob pena de deixar de ser pesquisador. Pode mudar sua relação subjetiva com o conhecimento; mas não muda o próprio conhecimento, nem seus limites objetivos.