X-Men e o Bem

por Breno Lucano

Para todo e qualquer leitor de histórias em quadrinhos a pergunta fundamental é: porque os heróis são bons? Vemos o Superman salvando a humanidade, o Hulk sendo perseguido pelo exército, a Mulher Maravilha saindo de Themyscira para ajudar o mundo em guerra. Eles poderiam não ter escolhido esse destino. Poderíamos pensar, por exemplo, o Professor Xavier como um simples professor ou o Lanterna Verde apenas como mais um guardião, distante e desconhecido da Terra. Mas escolheram nos proteger. Por que?

Uma hipótese é que eles são motivados a serem bons por uma convicção de que esse tipo de escolha é o maio mais apropriado para garantir a tolerância e a aceitação entre as pessoas. Assim, sendo "o ser bom" possui conotação de cálculo estratégico e político, um meio de se alcançar um fim desejado. O objetivo de ser bom não é ser bom, mas a aceitação e a sociedade justa.

Epicuro, Da Física à Ética

por Breno Lucano

Da imensa obra de Epicuro, Diógenes Laércio transcreveu três epístolas (A Heródoto sobre a física, A Pítocles sobre os meteoros, A Meneceu sobre a moral), e 40 máximas capitais. Oitenta máximas foram descobertas há um século num manuscrito do Vaticano. Alguns fragmentos da monumental obra de Epicuro, Da Natureza, também estão disponíveis.

O que nos resta da sua obra é bastante consistente para termos uma idéia precisa do pensamento do filósofo do Jardim. Como era costume na época, Epicuro faz ligação entre suas reflexões físicas e éticas. Contudo, as Epístolas e Máximas de que dispomos praticamente não tratam de lógica, conhecida pela doxografia. Mas a física é amplamente desenvolvida nas epístolas (A Pítocles e A Heródoto).

Por Que Sofremos?

por Breno Lucano

Os filósofos chamados de pré-socráticos também foram chamados de fisiólogos em razão do material de suas reflexões, a constituição do mundo. Nesse universo surgiram importantes visões da physis, aquilo que propõe sustentação ao mundo físico. Alguns dirão que essa sustentação se dá por meio do ar; outros, dos números; há ainda quem acreditasse nos átomos ou no ápeiron.

Com Sócrates temos uma ruptura. Pela primeira vez o material das reflexões é deslocado do mundo natural para a antropologia, o homem que vive no mundo. À partir de Sócrates, começa-se a pensar sobre o êthos, questões inerentes à psicologia, ao direito e à ontologia. Falava-se sobre o mundo, mas apenas como meio de pensar o homem que vive nesse mundo.

Se a interpretação de Schopenhauer estiver correta - como penso que está! -, o deslocamento do mundo natural para o homem se deu por uma razão fundamental: o homem sofre. O sofrimento passou a ser o motor da filosofia pós-socrática, isto é, passou a ser o motivo pelo qual se fazia filosofia. Isso justifica, entre outras coisas, o porquê a preocupação da filosofia helenista com a questão da felicidade e de que modo ela pode ser entendida e conquistada.

Euclides e os Megáricos

Euclides de Mégara
por Breno Lucano

Euclides de Mégara (citado em Diógenes Laércio, em II: 106 em diante), o fundador da escola filosófica dos Megáricos, foi aluno direto de Sócrates, cuja morte presenciou. Possivelmente foi aluno também de Parmênides e, mais tarde, deu abrigo ao jovem Platão. Seus esforços foram ao de tentar unificar o pensamento de de Sócrates (Deus, Sabedoria, Bem) ao de Parmênides (Uno).

A unidade proposta por Euclides combatia frontalmente Heráclito e suas mudanças e devir, mas também Platão com a pluralidade das idéias e essências inteligíveis. Afirmava a unidade da virtude, ainda que designada por vários nomes.

Recusando a multiplicidade empírica tanto quanto a multiplicidade das essências, Euclides também nega a dialética, já que esta se baseia na discussão dos contrários e, portanto, deveria assumir a multiplicidade.

Filósofo Libertino

Johnny Deep no filme O Libertino
por Breno Lucano

A filosofia Iluminista não é apenas apolíneo, também é dionísico, e ambas as forças se complementam. Claro, do lado de Apolo, entramos na ordem, a luz, a sobriedade, a calma, a medida, a epopéia dramática, a simplicidade, a transparência, a dialética, o numérico, mas também simultaneamente, com Dionísio, notamos também a música e a embriaguez, o canto e a dança, a vida exultante, o ardor, as forças misteriosas, o júbilo, a natureza. Voltaire põe Apolo num pedestal, mas, assim fazendo, esquece a existência de outra metade do mundo. O libertino evoluiu nesse teatro das forças, o filósofo libertino ao lado dele.

O termo libertino existe, mas desde sempre serve para quase tudo. É algo semelhante ao termo estóico e cínico, cuja precisão terminológica resiste apenas nos manuais de filosofia. Inicialmente, o termo libertino desacredita e desqualifica um homem e um pensamento: o libertino denomina de outro modo o ateísta, como se dizia na época, o reformado, o heterodoxo, o herético, o homem livre, ou qualquer outro personagem que não crê no Deus dos cristãos com o fervor e a abnegação mental exigidos pela Igreja Católica. A etimonologia confirma: o libertino - o libertinus dos romanos - define o emancipado.

Diógenes e Crítica Social

Diógenes
por Breno Lucano

A tradição possui muito a falar na filosofia, principalmente quando o assunto tratado é a antiguidade. É o que ocorre com o cinismo. Segundo os relatos doxográficos, o objetivo de Diógenes era demonstrar pelo seu próprio exemplo a superioridade da natureza em relação ao costume. Dessa forma ele passou toda a sua vida tentando questionando os valores falsos da cultura dominante: a terminologia correta em termos de Diógenes é desfiguração, recordando a recomendação que o oráculo de Apolo deu ao filósofo em Delfos. Em todas as áreas da atividade humana, essa desfiguração levou os cínicos a adotar posições escandalosas.

Tornando um exemplo da política: os cínicos apareceram numa época em que, embora a pólis tradicional estivesse começando a ser abalada em suas funções pelas conquistas do jovem Alexandre, muitos ainda não estavam prontos para abandonar seus papéis tradicionais na vida civil e política. E, no entanto, Diógenes pregava o cosmopolitismo, declarando-se "sem cidade" (a-polis), "sem causa" (a-oikos) e "cidadão do universo" (kosmopolites). Diógenes insistia em todos seus relatos para que as pessoas se abstivessem de todo engajamento político que, como obrigações familiares e sociais, pudessem constituir um obstáculo à liberdade individual.