Diógenes e o Ofício Cínico

Diógenes na pintura "Escola de Atenas", de Rafael
por Breno Lucano



O cinismo era primordialmente definido como "um atalho para a virtude", em oposição ao estudo elaborado e teórico típico da filosofia. Contudo, esse atalho não significava algum tipo de facilidade quanto à aquisição de uma vida filosófica, porquanto requeria a aplicação de um método rigoroso: a askésis ("exercício", "prática", "treino", "disciplina").

Entendida no sentido cínico do termo, a askesis tinha o intuito de ser um método preventivo. A cada dia, o cínico treina a si mesmo fisicamente nas artes da perseverança e da resistência; o exercício diário da vontade faz com que o medo se dissipe, já que o cínico praticante está constantemente se fortificando contra infortúnios imprevistos. A compreensão da askesis deve ser entendida sob o contexto do cínico como um filósofo da contingência.

O conceito de "disciplina" (askesis), emprestado do vocabulário do atletismo, não era usado pelos cínicos apenas no sentido metafórico. Como a do atleta, a disciplina (askesis) do filósofo era totalmente concreta. A única diferença estava no telos de seu treinamento, a finalidade de seu ofício: enquanto o atleta treinava o seu corpo com vista à vitória no estádio, o cínico o treinava para fortalecer a sua vontade e assegurar a sua capacidade de resistência.

Poliamor e Poder

por Breno Lucano

Em tempos de elevada onda ultra-conservadora que varre a sociedade brasileira, variados temas entram em choque com os costumes, como o uso da maconha para fins medicinais e a marcha das vadias. Outros temas, contudo, já foram e continuam sendo de algum modo discutidos, como a reprodução in vitro, a instituição do divórcio, a entrada da mulher no mercado do trabalho, a cultura gay, a legalização do trabalho das profissionais do sexo, entre outros. Um me chamou a atenção: o poliamor.

Conceituamente o poliamor viabiliza a desconstrução da monogamia enquanto imperativo normativo, viabilizando a vivência de variados amores simultâneos e de profundidade e durabilidade. Ele, contudo, não se confunde com poligamia na medida em que a poligamia sugere assimetria de gêneros. Se pensarmos, a título de exemplo, os muçulmanos, apenas o homem pode ser polígamo, constituindo um núcleo familiar formado por um homem com várias mulheres. O poliamor admite, opostamente, a vivência de mais de uma relação amorosa simultânea, tanto de homens quanto de mulheres.

Moral Atéia?

por Breno Lucano

Frequentemente somos questionados quanto às articulações existentes entre a fé e a moral. Em termos mais simples, qual o real impacto da fé - ou sua ausência - na moralidade? Minhas experiências no convento franciscano parecem fazer algum sentido para uma pergunta que parece tão óbvia: a fé possui importante papel na motivação, além de conferir sentido ao mundo. Posteriormente, pude verificar a diferença sob o enfoque ateu, algo que me fez lembrar de Kant em seu célebre Crítica da Razão Pura, onde ele resume o domínio da filosofia em três questões: "que posso conhecer? Que devo fazer? Que posso esperar?" Confrontemos rapidamente cada uma das três com a perda eventual da fé.


Em termos de conhecer, a perda da fé em nada produz alteração. O conhecimento científico continua sendo o mesmo, com todos os seus limites. Talvez a crença em Deus produza algum estado de espírito, o motive, propicie um sentido último às suas pesquisas, sem, contudo, modificá-las, sob pena de deixar de ser pesquisador. Pode mudar sua relação subjetiva com o conhecimento; mas não muda o próprio conhecimento, nem seus limites objetivos.

Cracolândia e Paraísos Artificiais

Moradores da Cracolândia fizeram barricada
para impedir entrada da Guarda Civil Municipal
na região
(Foto: TV Globo/Reprodução)
por Breno Lucano

Há algumas semanas saiu nos jornais uma matéria de grande repercussão nacional: a cracolândia que se formou em São Paulo e que mobilizou ação da prefeitura para o acolhimento dos usuários de drogas (veja a matéria clicando aqui). Embora o assunto não seja novo e cracolândias e uso de drogas exista de forma disseminada nas grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, entre outras, logo nos perguntamos o que faz um indivíduo abandonar sua vida, principalmente quando socialmente estabilizada, e passar a viver nas ruas, mendigando alimento e drogas, passando fome, frio e toda sorte de infortúnios que a necessidade seja capaz de produzir. Mas como tratar a questão filosoficamente?

Tratei do assunto em meu TCC - Uso e Abuso de Drogas Pelo Jovem -, em 2002, quando me formei na UFRJ. Mas penso que o assunto não se esgota e merece nova atenção. Tema de reflexão antes, ele recorre hoje e será sempre motivo de novas abordagens, variando de autor em autor e de enfoque para enfoque. A problemática social, porém, permanece porque o sujeito será perene: o homem e a questão do desejo.

Mulher Maravilha e a Filosofia

por Breno Lucano

Um dos filmes mais esperados de 2017 foi Mulher Maravilha, protagonizado por Gal Gadot, heroína precursora do feminismo nos quadrinhos e, seguramente, uma das mais influentes na cultura pop. Sua interferência na filosofia é ainda mais nítida do que a do Superman em face de sua própria criação em 1941 por Willian Moulton Marston, psicólogo famoso pela criação do polígrafo.

Diana provém de Themyscira, uma ilha paradisíaca que, de certo modo, se assemelha ao Paraíso dos hebreus, um lugar de bem-aventuranças e constante felicidade. Mas Themyscira também é a última esperança de Zeus no confronto contra Ares, seu belicoso filho. Suas habitantes, as amazonas, são uma raça semi-divina de mulheres que possuem a guerra como única salvação. Mas não se trata de qualquer guerra, mas uma guerra contra o próprio Ares. Nesse panorama surge a filha da rainha Hipólita, princesa Diana, criada do barro a partir do sopro de Zeus.

X-Men e o Bem

por Breno Lucano

Para todo e qualquer leitor de histórias em quadrinhos a pergunta fundamental é: porque os heróis são bons? Vemos o Superman salvando a humanidade, o Hulk sendo perseguido pelo exército, a Mulher Maravilha saindo de Themyscira para ajudar o mundo em guerra. Eles poderiam não ter escolhido esse destino. Poderíamos pensar, por exemplo, o Professor Xavier como um simples professor ou o Lanterna Verde apenas como mais um guardião, distante e desconhecido da Terra. Mas escolheram nos proteger. Por que?

Uma hipótese é que eles são motivados a serem bons por uma convicção de que esse tipo de escolha é o maio mais apropriado para garantir a tolerância e a aceitação entre as pessoas. Assim, sendo "o ser bom" possui conotação de cálculo estratégico e político, um meio de se alcançar um fim desejado. O objetivo de ser bom não é ser bom, mas a aceitação e a sociedade justa.