Filosofia Helenista

por Breno Lucano

A característica mais marcante da filosofia helenista é uma tendência à sistematização e ao dogmatismo. A filosofia aqui se faz em conjunto com vários filósofos, cada qual com sua contribuição. Criam-se várias comunidades filosóficas que se afirmam como um lar espiritual. O centro da filosofia é e continua sendo Atenas, onde Platão e Aristóteles haviam fundado as primeiras comunidades filosóficas. As especialidades que floresciam no helenismo, como a medicina, a matemática ou a filologia, em contrapartida, procuraram um novo lar, seja em Alexandria, Pérgamo ou Antioquia. Nessa separação espacial manifesta-se de forma sensível uma situação de concorrência entre as especialidades e a filosofia, que deve ser considerada na apreciação de certas particularidades da filosofia helenista. Pois, enquanto as especialidades viam a sua tarefa em investigar e sondar coisas desconhecidas, a filosofia estava mais interessada em ampliar e aclarar aquele saber que ela acreditava já estar à disposição.

A preocupação fundamental desse período é a felicidade. Não obstante todas as demais diferenças entre elas, o ponto comum que distingue a escola de Epicuro e o estoicismo é que eles consideravam as questões da moralidade prática como particularmente importantes, encaravam a filosofia como arte de viver e, por isso, viam na ética uma parte especialmente importante de sua doutrina.


Com certeza, a pesquisa filosófica não foi negligenciada nem pelo estoicismo nem entre os epicureus. Epicuro, por exemplo, escreve, entre outros, 28 livros sobre física. Para ele, no entanto, teoria e práxis, "esclarecimento e serenidade", estão estreitamente ligados.

A observação da natureza, a theoría, é uma parte essencial, por exemplo, da filosofia estóica, e também da epicuréia. Para os epicureus, por exemplo, a interpretação correta dos fenômenos naturais é de importância central para a felicidade, na medida em que ela liberta do medo resultante de avaliações erradas, por exemplo, sobre a essência dos deuses ou dos fenômenos da natureza. Teoria e práxis moral estão estreitamente ligadas. Ambas servem à terapia do "si-mesmo".

A sentença do estóico Epicteto, segundo a qual Deus colocou os seres humanos no mundo para que fossem não apenas contempladores, mas também intérpretes das suas obras ( Diss 1,6, 19-20), vale de certo modo também para os epicureus, como fica evidente no proêmio ao quinto livro de Lucrécio, De Rerum Natura. As escolas do helenismo tinham em vista as necessidades e problemas da vida no imanente: propondo a sua doutrina como uma especialidade (ars vitae) para uma vida boa e exitosa (eudaimonía); Epicuro, oferecendo esclarecimento e, por meio deste, libertação do temor e aquela tranquilidade interior que permitia ao ser humano "viver como um Deus na terra" (Epicuro, ep. Men. 135); o estoicismo, remetendo o ser humano dotado de razão ao mundo conduzido racionalmente pela providência, para assim promover aquele estado de felicidade que é possível ao ser humano; o pirronismo, por fim, pregando cautela em relação à postura dogmática como um meio para libertar-se da intranquilidade gerada pelo dogmatismo e encontrar a felicidade.

É lugar comum a afirmação segundo a qual após a morte de Alexandre, o Grande, e, com a universalização da cultura, a filosofia toma também um aspecto cosmopolita e universal. Contudo, essa suposição é, no mínimo, unilateral. É questionável se as modificações, por exemplo, na vida da pólis realmente foram tão radicais como às vezes se presume. Além disso, não se deve esquecer que a busca pela felicidade e o cuidado de si não seja uma exclusividade do período helênico: um grande exemplo aceito pelos filósofos helenistas é Sócrates, cuja pergunta "como devo viver?", formulada no Górgias, de Platão, é retomada como fio vermelho. O exemplum Socratis é especialmente influente nas escolas filosóficas do helenismo, e também nos primeiros séculos do período imperial. Por isso, em relação à pretensão da filosofia de ser especialidade para condução da vida, dever-se-á apontar para a rivalidade entre as escolas filosóficas, e sobretudo para a situação de concorrência frente às especialidades bastante exitosas.

Também o dogmatismo muitas vezes lamentado da filosofia helenista encontra aqui, no mínimo, uma explicação. O automatismo da transformação do saber correto em ação, propagado por Sócrates e Platão, havia se tornado problema. Por isso, busca-se uma postura do ser humano que torna o saber um elemento imperdível de quem atua e que, portanto, está sempre à sua disposição em qualquer situação. Trata-se, portanto, de tingir aquele que age com uma forma "pré-pronta" do saber, como descrito por uma imagem muito utilizada (Sêneca, epist. 71, 31; Marco Aurélio, Med. 5, 16). A filosofia transforma-se numa discurssão com textos considerados canônicos. Ela torna-se uma arte de interpretação, que não visa à originalidade, mas, ao contrário, procura remontar tudo a opiniões do fundador da respectiva escola. Desse modo foi demonstrado a subjetividade como propriedade do intérprete, um fenômeno que permanece sendo característico até a Antiguidade tardia - e para além dela - e mostra convergências com o procedimento judeu-cristão. Portanto, essa postura de modo algum exclui o pensamento vivo e autônomo, pois observando com mais precisão muitas vezes aspectos novos e estimulantes resultam sob o escudo protetor do dogmatismo, da ortodoxia e da autoridade. Na filosofia estóica, e também no epicurismo, o dogmatismo de modo algum era tão estéril e esclerosado como muitas vezes se afirma: temos, por exemplo, em Crisipo o segundo maior lógico de toda a antiguidade. Seguramente também por causa dessa capacidade de adaptação, especialmente as doutrinas de Epicuro, do cepticismo pirrônico, do cinismo, mas particularmente a dos estóicos, permanecem influentes até o século II d.C. Muitos elementos da filosofia helenista conseguiram chegar até mesmo à Antiguidade tardia dominada por Platão.



Artigos Relacionados:





Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.