Protágoras de Abdera

Por Breno Lucano


Nascido em Abdera por volta de 481 a.C., Protágoras, cuja produção filosófica situa-se por volta de 444-440 a.C., viajou por quase todas as cidades da Grécia, foi a Atenas, onde viveu no Círculo de Péricles, que o honrou fazendo-o legislador da colônia de Turói, à qual Protágoras deu uma constituição escrita. De volta à Atenas, foi levado perante à assembléia, acusado (como Anaxágoras, quase na mesma época) de impiedade ou de ateísmo (pois afirmava que os deuses e a religião existiam por convenção). Fugiu. Morreu aproximadamente aos 70 anos, portanto, em 411 a.C., durante um naufrágio.



De sua obra restam poucos fragmentos, tal como alguns autores da antiguidade. Teria escrito Sobre a Verdade e Sobre o Ser (também conhecido como Escritos Demolidores), e Sobre os Deuses. Também lhe é atribuída uma obra intitulada Antilogias, da qual provém a maioria das citações feitas sobre suas idéias (mas não sabemos se "antilogia" era o título da obra ou o nome que lhe foi dado depois que Platão afirmou que Protágoras trabalhava com antilogias, isto é, com argumentos ou logói contrários a favor e contra uma mesma coisa). Infelizmente, quase tudo que sobre ele sabemos vem de seu inimigo, Platão, que a ele dedicou o diálogo Protágoras. Por isso não podemos saber com certeza quais foram suas idéias. Se Platão estiver correto, seu pensamento mais popular foi:

"O homem é a medida de todas as coisas."

Por "coisas" deve-se entender desde os artefatos feitos pela linguagem e pelas mãos dos técnicos até os objetos naturais, desde as qualidades opostas (quente, frio, seco, úmido, luminoso, escuro, liso, rugoso) até as opiniões ou lógoi, desde as diretamente visíveis ou perceptíveis até as invisíveis ou imperceptíveis, alcançadas pelo pensamento. Tudo, portanto. "Todas as coisas."

De todas as coisas "o homem é a medida". O homem se consolida como critério absoluto: do que as coisas são e do que não são. Como o homem é a medida de todas as coisas, o ser e o não-ser dependem inteiramente de nossas sensações, percepções, opiniões, idéias e ações. Protágoras opta por um subjetivismo muito mais radical do que o de Demócrito, pois este, ao mesmo tempo que afirmava o caráter subjetivo da experiência sensorial, também afirmava a existência da phýsis imutável, eterna e sempre idêntica a si mesma, cujo conhecimento é verdadeiro. Com Protágoras, não há mais phýsis, não há mais ser idêntico que subjaz às aparências e que pode ser universalmente conhecido por todos através do pensamento. A medida ou a moderação, que toda a filosofia anterior havia colocado na própria phýsis, se transfere para o homem. As coisas são ou não são conforme os humanos as façam ser ou não ser, ou digam que elas são ou não, segundo o nómos.

O adágio "o homem é a medida de todas as coisas" manifesta quanto Protágoras se filia à invenção da história e ao desenvolviemtno da medicina. Da história, como vimos, nasce o convencionalismo sofístico ou a defesa do nómos. Da medicina, vem a idéia de que a saúde e a doença, embora tenham características que permitem um saber universal, são sempre individuais e a cura está referida ao indivíduo, que é, assim, o critério (medida) da ação do médico e o objeto da ação do médico (conservar ou restabelecer a medida dos constituintes corporais). Mas não só isso. Vimos que medida significa moderação. Desse ponto de vista, o que é o "homem medida de todas as coisas"? Explica Protágoras: os homens criaram inúmeras técnicas (caça, pesca, agricultura, metalurgia, tecelagem, olaria, carpintaria, marcenaria, navegação, comércio, estratégia, medicina, poética, etc.), mas estas nem sempre estão em harmonia e concordância, pois uma técnica ao ser boa para um certo fim poderá ser prejudicial para outro, ou uma técnica pode prejudicar o exercício de outra. É preciso compatibilizá-las, eliminar o conflito entre elas, encontrando uma medida para isso. Essa medida só pode ser uma técnica capaz de moderar todas as outras, adequando-se entre si e harmonizando seus meios e fins. Essa técnica moderadora, medida das demais, é a política, arte moderadora dos conflitos e instituidora da lei ou nómos. Se a justiça é o equilíbrio de forças e a reparação de faltas, somente a política é capaz de conciliar, em cada cidade, o nómos e a díke, isto é, a lei e a justiça. A lei ou a nómos é a medida de todas as coisas e o critério para avaliar e regular as técnicas. 

Assim, o homem é a medida de todas as coisas que são, que são, e das que não são, que não são, significa que é por ações humanas que as coisas existem tais como são e que outras não existem , porque os homens convencionaram, por meio das leis, não admiti-las.

Dessa maneira, podemos retornar ao "todas as coisas" para compreender seu sentido. Pela sensação, percepção, imaginação e pensamento, todas as coisas produzidas pela natureza são, para nós, opiniões, variando no tempo e no espaço, de indivíduo para indivíduo e num mesmo indivíduo. Pela política, todas as coisas inventadas pelos homens, isto é, as técnicas e seus produtos, só existem se os homens convencionarem em suas leis que essas técnicas e as coisas fabricadas com elas ou as ações realizadas por elas são aceitáveis e admissíveis. O homem é medida da realidade não significa, portanto, que o homem tem o poder total para fazer as coisas ser ou não ser, mas tem o poder pleno para decidir o que elas são ou que elas podem ou devem ser e quais não deverão passar à existência. É exatamente isso que o fragmento de Protágoras diz quando explica "das que são, que são, e das que não são, que não são."

Estando todas as coisas e o próprio homem em contínua mudança, as opiniões necessariamente serão divergentes, opostas, quase nunca iguais entre si acerca de algum objeto. Não há princípio de identidade - porque não há phýsis - e não há princípio de contradição - porque nossa percepção e nossa opinião tem sempre razão, ainda que opostas às de outros. Eis por que mudamos de opinião somente de formos persuadidos por outra melhor ou mais forte do que a nossa.

Contrariando Platão, não há conceitos universais ou qualidades opostas, tais como justiça e injustiça, o bem e o mal, o útil, as leis, os deuses. Todas são convenções nascidas das necessidades humanas de se estabelecer a vida em comum. Não há verdade, apenas opiniões em movimento.  A arte retórica e a arte política devem persuadir-nos de quais são as melhores verdades e as melhores técnicas para cada cidade.




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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.