Pnêuma

Os estóicos sustentavam que o mundo é permeado por uma substância dinâmica responsável, no nível mais baixo, pela coesão dos objetos materiais; no nível imediatamente superior, pela organização de um organismo auto-reprodutivo com um metabolismo funcional; no nível seguinte, pela percepção animal e pelo poder voluntário; e, finalmente, nos seres humanos, pela cognição e pelo entendimento (SVF 2.716). A essa matéria, leve e volátil, ainda que dotada de habilidade para gerar e manter uma estrutura, eles davam o nome pnêuma, e variegadamente descreviam-na como misto de fogo e ar, ou como o ar dotado de propriedade ígnea, ou como combinação dinâmica entre o quente e o frio (SVF 1.127, 135; 2.389, 786, 841 etc.).

O termo pnêuma, contudo, não era próprio deles. Originalmente significando "vento", ele teve uma história filosófica e científica longa e confusa. O tratado hipocrático Sobre a Respiração 3-4 distingue o pnêuma interno ("respiração") do pnêuma externo ("ar"), e o faz responsável pela vitalidade e pela saúde. Pnêuma parece ser aqui nada mais, nada menos, que o ar em movimento, e o autor claramente observa a necessidade da inalação do ar para a vida (algo que nem todos os antigos teóricos aceitavam).



Na biologia de Aristóteles, pnêuma tem o significado expandido para agir em toda uma variedade de maneiras. Descrito como "ar quente" (De generatione animalium II, 2, 736a1; cf. II 5, 736b34ff), é responsável pela ejaculação do sêmen, "pois nada é arremessado a distância sem pnêuma" (Historia animalium VII 7, 586a15-17; cf. X 2, 634b34ff; De generatione animalium I 6, 718a2ff.) - o que está em questão aqui são os efeitos dinâmicos simples do ar em movimento. Contudo, pnêuma também é a causa da diferenciação das partes no embrião (De generatione animalium II 6, 741b37ff.): é o portador da forma animal trazida no sêmen, que é água imbuída de pnêuma. Ademais, o ativo é identificado ao quente e o passivo ao líquido (742a15), em uma antecipação parcial da teoria estóica.

Mas a função do pnêuma não se limita à concepção e à geração. Os animais são dotados de um pnêuma interno, reabastecido por, mas não idêntico a, ar inalada, responsável pelas funções vitais. Também é o portador do movimento voluntário da alma para os músculos, e a causa da operação destes (De motu animalium 10). Os pormenores mecânicos da imagem são - o que não chega a espantar - obscuros e insatisfatórios, mas é claro o papel do pnêuma como análogo à função do sistema nervoso motor.

Também a fisiologia de Díocles envolvia o pnêuma (frs. 32-4 etc. vdE), e ele distingue suas formas psíquicas das demais formas (Frs. 78, 80, 95, vdE). O pnêuma também exerce função na fisiologia de Herófilo, muito embora ele tenha descoberto a função dos nervos. Ele atribui a visão à operação do "pnêuma sensorial" por meio do nervo ótico (T 140 vS). No entanto, a se confiar em Galeno, ele aparentemente pensava que os próprios nervos motores fossem os órgãos do movimento voluntário, sem a necessidade de estarem plenos de pnêuma (T 141 vS; cf. 143).

Também Erasístrato teorizou sobre o pnêuma; e ao que parece ele distinguia, como o fizeram os estóicos (SVF 2.716), entre o pneúmata vital e psíquico (PHP V 184-5). Porém, contra Crisipo (e o autor do Texto I), ele sustentava que o ventríloco esquerdo do coração continha somente o primeiro. No sistema de Erasístrato, as artérias funcionavam (em circunstâncias normais) unicamente como condutos para o pnêuma, embora não para o pnêuma da inteligência: qualquer irrupção de sangue nas artérias é patológica (Fr. 109 Garofalo), opinião que as experiências de Galeno demonstraram ser falsa. Mas se a idéia de que os condutos do coração contêm pnêuma é, em linhas gerais, indubitavelmente congênita aos estóicos à luz de sua teoria cardiocêntrica da alma racional, os pormenores das duas teorias são evidentemente muito diferentes e não há necessidade de supor nenhuma fertilização cruzada de doutrinas entre eles.

Porém, tudo isso é relevância apenas limitada para o pnêuma dos estóicos. Alguns médicos podem ter feito uso da idéia estóica de uma matéria volátil em tensão dinâmica oscilante com o intuito de esboçar uma explicação dos fenômenos que associamos à transmissão neural; mas existem provas escassas em favor disso, talvez por uma boa razão. Galeno assevera (PHP V 791-5) que há questões numerosas que, embora interessantes por si mesmas, não têm a menor relevância para a medicina e não podem ser resolvidas por meio de testes empíricos. Tais questões incluem a eternidade do mundo, a existência de um vácuo extramundano (771) e, o mais importante para nossos fins, a natureza da alma e a questão a respeito de se ela é ou não imortal (763, 766; cf. Sobre a formação do feto IV 700-2 Kuhn). O médico qua médico não tem necessidade de investigar a substância da alma e sua possível sobrevida: o limite de importância não-filosófico é determinado por exigências clínicas. Assim, é de importância vital saber que os nervos são os veículos das funções sensoras e motoras, visto que daí se segue que quaisquer danosa eles atingirão, ou até destruirão essas funções. Mas questões tais como se eles agem por transmissão do pnêuma e, em caso afirmativo, o que é, precisamente, o pnêuma, são de importância menor. Embora ele conceda que o pnêuma é aquilo por meio de que a alma comunica seu poder, ele nega que a alma seja idêntica a ele (PHP V 606, 609). Para ele, o pnêuma em verdade funciona como substituto para o que quer que de fato seja responsável por tais transmissões causais. Galeno é empirista o bastante para conceder que pode haver modos de tal transmissão que não envolvam nenhum fluído intermediário (um exemplo por ele citado é o choque elétrico provocado por um peixe-elétrico através do tridente do pescador: Sobre as partes afetadas VII 421-1 Kuhn).

Em suma, se os estóicos assumem e desenvolvem o conceito de pnêuma, noção com uma longa história filosófica e médica, eles o fazem com vistas a seus próprios fins, em ampla medida independentes das preocupações médicas.


HANKINSON, R. J.. Estoicismo e Medicina. In__: INWOOD, Brad. Os Estóicos. São Paulo: Odysseus Editora, 2006. p. 331-333


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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.