Diógenes e o Ofício Cínico

Diógenes na pintura "Escola de Atenas", de Rafael
por Breno Lucano



O cinismo era primordialmente definido como "um atalho para a virtude", em oposição ao estudo elaborado e teórico típico da filosofia. Contudo, esse atalho não significava algum tipo de facilidade quanto à aquisição de uma vida filosófica, porquanto requeria a aplicação de um método rigoroso: a askésis ("exercício", "prática", "treino", "disciplina").

Entendida no sentido cínico do termo, a askesis tinha o intuito de ser um método preventivo. A cada dia, o cínico treina a si mesmo fisicamente nas artes da perseverança e da resistência; o exercício diário da vontade faz com que o medo se dissipe, já que o cínico praticante está constantemente se fortificando contra infortúnios imprevistos. A compreensão da askesis deve ser entendida sob o contexto do cínico como um filósofo da contingência.

O conceito de "disciplina" (askesis), emprestado do vocabulário do atletismo, não era usado pelos cínicos apenas no sentido metafórico. Como a do atleta, a disciplina (askesis) do filósofo era totalmente concreta. A única diferença estava no telos de seu treinamento, a finalidade de seu ofício: enquanto o atleta treinava o seu corpo com vista à vitória no estádio, o cínico o treinava para fortalecer a sua vontade e assegurar a sua capacidade de resistência.



O treinamento (askesis) cínico dá-se na preparação para uma disputa, e o agonista precisa estar seguro de não perder de vista o sentido de seu esforço. Diógenes alertava que qualquer sofrimento inútil exigido por costume social, família, negócios ou política não valia a pena:

"ele elogiava aqueles que estavam prestes a se casar mas não o faziam, os que estavam prestes a sair do barco mas não o faziam, os que estavam prestes a entrar na política mas não o faziam, os que estavam prestes a criar filhos mas não o faziam, os que estavam prestes a viver no tribunal mas não o faziam" (D.L. 6,29) 

Em vez das lutas atléticas, Diógenes enfrentava dilemas e dificuldades existenciais, como exílio, pobreza, fome e morte. Para ele, esta era a única batalha que valia a pena ser vencida. Embora a existência civilizada representasse essas provações (ponoi) como más, o cínico procurava suportá-las precisamente recusando-se a considerá-las más. Para adquirir esse estado mental, os cínicos exortavam a si mesmos e aos outros a praticar uma vida de acordo com a natureza (kata physin).

O treinamento diogeniano consistia em beber água, dormir no chão, comer e se vestir com simplicidade quando a Fortuna atacar. A lei da askesis cínica era simples: consistia em viver na pobreza e satisfazer apenas as necessidades naturais - "o modo de aprender filosofia livre de instrução". Desta forma, o cínico buscava liberdade da agitação emocional (apatheia) e independência do mundo exterior.

No cinismo de Diógenes não há autonegação por si só ou a serviço de uma meta transcendente. Embora seja verdade que muito do que tornou Diógenes influente na Antiguidade será perdido se caracterizarmos o seu cinismo apenas como uma moralidade prática, o elemento prático era, ainda assim, fundamental para a atração que ele exercia. Não é por menos que o cinismo se tornou a filosofia mais popular da antiguidade, reservando o estoicismo apenas ao círculo culto da sociedade.

Diógenes gostava de proclamar-se:

"Sem cidade, sem casa, desprovido de pátria,Um mendigo e vagabundo, vivendo de um dia para o outro." (D.L. 6,38)

Os sinais tangíveis de sua "disciplina" (askesis) eram os apetrechos que o filósofo carregava consigo: sua sacola contendo tudo o que ele possuía, um bastão e uma túnica grosseira e curta, sua única vestimenta no inverno e verão, que ele também usava como cobertor. O cínico assemelhava-se a um franciscano medieval, vivendo aqui e ali, onde pode e com o que tem. Assume, portanto, um caráter missionário: saía pela estrada para difundir a sua mensagem.

A terapia que ele recomendava era bastante incomum: baseava-se, em primeira instância, em franqueza e liberdade de discurso (parrhesia), o que com frequência levava a réplicas e reprimendas devastadoras, e no riso - riso destemido que abalava o interlocutor e o forçava a reagir. O despudor tipicamente cínico não possuía nele seu próprio fim, mas como um instrumento pedagógico. O despudor fazia com que o interlocutor repensasse à partir de situações cotidianas.

A prática de Diógenes buscava fazer que os outros tomassem consciência das incoerências da vida civilizada em comparação com a "vida natural" e levá-los a abandonar sua falsa vergonha. Estas eram as preliminares indispensáveis a qualquer pretensão de praticar filosofia.


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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.